Tem coisas que são tão óbvias que tornam até inexplicáveis, como 1+1=2. A minha rotina é simples e rídicula o bastante pra ser inexplicável. Estudo biologia na faculdade próxima à minha casa. Pra chegar ao laboratório, o qual tenho aula sempre no primeiro horário todos os dias, eu passo pelo caminho mais longo só pra poder sentir o cheiro do café da manhã da cantina. Adoro subir o morro que me leva até lá e sentir aquele cheiro de pão com linguiça, em plena sete horas da manhã. Nossa...eu fico salivando só de pensar naquele aroma e fico saboreando o cheiro e o ingerindo com a minha saliva. Pode parecer esquisito, mas eu mergulhava numa espécie de delírio incomum. E assim são todos os dias da minha vida. Mas hoje foi diferente. Eu estava subindo a estrada, no frio típico de julho, até que meu estômago começou a revirar. Eu nunca tinha sentido um cheiro tão horrível na minha vida. Mas o que era aquilo cheirando estranhamente , como uma fritura velha e gordurosa? Pois é, era o pão com linguiça. O maravilhoso e formidável, pão com linguiça! O que tinha de errado dessa vez? Abaixei, amarrei o tênis e subi novamente para a superíficie. O cheiro era o mesmo, o familiar de todas as manhãs.Na sexta-feira seguinte, lá estava o meu estômago revirado. O que tinha de errado com o meu nariz? E o que tinha de errado comigo mesmo? Não era possível, eu não estava salivando! Isso nunca tinha acontecido antes. Sábado e domingo chegou e eu esperava que o meu estranho comportamento iria se curar até a segunda-feira. Achava que era apenas um princípio de gripe, nariz entupido, má disposição, aliás, estava tão frio...
Segunda-feira, estava eu bem, animada e subindo o morro, avistei a cantina e senti o cheiro do ar que estava a minha volta. As neblinas estavam baixas, a minha cabeça começou a doer, vi a cantina mudar de posição rapidamente e eu não vi mais nada. Quando acordei, estava na enfermaria na faculdade e meu namorado estava do meu lado. Ele me deu a mão, e disse que tudo ficaria bem. Naquela hora, inexplicavelmente eu tinha certeza que dali em diante, dividiríamos pra sempre as nossas vidas.

